POEMAS DE VALMIR CAMARGO

Valmir Nogueira Camargo, poeta e artista plástico nascido em São José dos Campos-SP em 11 de novembro de 1959, residente também em São José dos Campos.

- Publicou poemas, contos e crônicas no Jornal do Vale de SJC-SP durante o ano de1985.
- Em 1983 recebeu Menção Honrosa no III Concurso Raimundo Correa de Poesia, tendo o poema "Opúsculo adendo" sido publicado no volume III da Coletânea "A Nova Poesia Brasileira" - Editora Shogun Arte - Rio de Janeiro.
- Publicação do poema "Devastação", classificado no II Concurso Jornal Bandeirante de Contos, Crônicas e Poesias da Empresa Aeronáutica EMBRAER - 1986.

À CHUVA NOTURNA EM CÂNTAROS

A cântaros despeja-se
Num farfalhar intermitente
Intempestivo
Horas ilhadas
Só com a consciência
De si
Sendo
Chovendo
A cântaros
Farfalhar contínuo
Calhas
Das quais caem
Filigranas
Liquidaquosas
Intermitência
Fluxo: diminuindo
Energia vital
Fluxo: crescendo
A chuva não pára
D'encântaros
Cair
A noite se fecha
Em si


A INTERFACE

Face à face
Tête-à-tête
Une surface
Pas d'une bête

Assimilar o dado
Circunstancial
Sem o malfado
Ditatorial

A dialética das partes
A composição do todo
A luta de apartes
O discurso do método

As interações totalizantes
Abluções de ideários
Manobras personalizantes
Colcha de bestiários

Meta participativa
Ideais democráticos
Política representativa
Mas não sejamos lunáticos

A hora é de composição
E nomes vêm a pique
Nada de radicalização
A tribo clama um cacique


À LA RECHERCHE DU TIME PERDIDO EVERY DAYS

Noturna é a noite
Como é natural
Nada mais claro

Como disse?
Havia entendido mal
Mal-entendido
Digo bem entendido

As pala fogem vras

Saudações sorumbáticas

Antes nunca do que tarde?
À la recherche du temp perdu? Avant jamais qui tard?
Em busca do tempo perdido?

Eu nicht songe above
Je sprechen em vão
Elos cadeias gomos pomos

O que pomos?
O que retificamos?

Nada é mais natural difere de Nada mais é natural

É possível um Éden

O calor não é substância, é propriedade
O que é fluido?


ALLER

Temos uma estrada que nos leva ao infinito
Allons! Não nos detenhamos
Mas também não nos apressemos
Pois o infinito não tem fim
Seu fim é sua infinitude
Caminho infindável
No infinitivo


ASFALTO

Pneus correm sobre o asfalto
Que brilha, reluz, queima
E a morte por sob as rodas.
Pés correm sobre o asfalto
Em fuga.
No asfalto falto
O assalto
Da morte escapar num salto
No asfalto, alto.
E a morte crivado de balas
No asfalto negro o féretro.
Asfaltos
Ladeados por edifícios altos
Condensados de neuroses.
O asfalto não tem culpa de ser pisoteado
Pela degeneração humana


ERROS

Mundo nosso
Mundo
Terra lar-planeta
Desequilibrado

Humana vida exacerbada
E o Mundo sofre
O Homem sofre

Terra tanta
Águas
Seres todos
Sofrem.

Sofremos nossos próprios erros.
Nossos erros.


AVENIDA PAULISTA

Perspectivas abertas no espaço
Vidro, aço, concreto, sonhos
Sorrisos e gestos
Olhares interceptados
Cores multifárias
Intersecções bifurcadas
Ponto, reta, labirinto
Brilham luzes
Vozes murmúrios
Segredos
Sonho no cinema
Sonho na rua
Gente que não tem fim
Concentrada ou distraída

Vitrines livros café
Notícias do dia
Encontros reencontros
Desencontros
Fluxo paulistano
Cornucópia humana
Perder-se em suas ruas
São Paulo das grandezas
E esquecimentos
Interrogo-te sobre teus mistérios
Que não são revelados
Senão aos poucos
Passo na Paulista
Passeio na Paulista
Interrogando suas esquinas

São Paulo, em alguns aspectos
Excessiva
Mas um coração pulsa imenso:
O coração da cidade
Suas artérias despejam vida

E morte
Bate o coração da Paulicéia
E eu não me esqueço.
Porisso passo pela Paulista


BARREIRAS

Saio à rua
Saio de mim
Saio
Olho de dentro
Lá fora
Fragmentos
Que se sucedem
Sucedem?
Imagens
Estímulos
Muros muros
Rapidamente passando
Gente germinando
Morrendo
Morte morte
Constantemente rondando
Melancólico
Patético
Gazuas da existência
Em vão
Passam passo
Espaço: ermo
Superlotado
Impressões voantes
Refluxo
Contenção
Não-quebra-mar
Obscuridade
Corte/
Medo/morte
Medo/muros
Muros/gente
Gente/morte
Vagamos
Vagar
Muros/morte
Corte.

Refluo
Saio à rua
Saio de mim
Saio


DIVAGAÇÃO

Um corpo contata
Matéria de mim
Num meio
Espaço que sinto
Vazio extemporâneo
Extenso limite
Inatingível expiação
Mental causal
Farragem real
Fome de
Sede de
Vida
Gotejante gosto
Indefinível
Sorvido avidamente
Embriagadora
Alucinação
Estrutura pretensa
Da desestrutura
Ruptura desequilíbrio
Vôo suaves instantes
Visões ilusões reais
Tanto quanto
Oceanos profundos
Firmamentos piscam
Durmo sonho
Vento brisa
Palmeiras esvoaçam
Homens vôam entôam
Sons
Silêncio luz
Precipitação
Desperto matéria
Contato em meio
A mim
O insurgir
A explosão luz
No vago indefinido


PANDILHA

Pantafaçudas pantomimas
Rebuçando o recacau.
Subterfúgios taimados:
Patifaria.

ASSEMBLÉIA

O cão ladra
O gato mia
O rato guincha
O ganso grasna
O pinto pia
A vaca muge
A ovelha bale
O canário trina
O lobo uiva
O leão rouge
A doninha rinha
A andorinha escaninha
O elefante intrigante
O ornitorrinco afinco
A serpente ingente
O pavão maganão
O avestruz de truz
O veado arraigado
O búfalo bufo
O lobo probo
A coruja garatuja
A baleia alheia
O gavião faz coligação
A piranha faz campanha
O corvo estorvo
O tigre denigre
A arara desmascara
O papagaio gaio
O periquito grito
A minhoca moca
O pinguin diz que sim
O esturjão que não
A corça fórça
A girafa espicaça
A tartaruga rusga
A lebre bebe
A anta se espanta
O javali estava ali
A ariranha estranha
A ema extrema
A galinha advinha
O cisne tisne
O gorila trila
A mariposa ousa
O grilo grila
O pardal diz que tudo vai mal
O camelo não dá no pêlo
A lhama se inflama
O vaga-lume assume
A pulga promulga
O piolho fica de olho
O percevejo não tem pejo
O albatroz atroz
O jacaré nada de costas
O tubarão passa um carão
A ostra mostra
A gaivota vota
O tucano entra pelo cano
O crocodilo faz trocadilho
O golfinho se engolfinha
O lagarto fica farto
A lagartixa vai à rixa
O esquilo diz que não é nada daquilo
O gambá deixa prá lá
O tamanduá quer fuá
A codorniz se desdiz
O urso faz discurso
A foca provoca
A cobra cobra
O touro quer um ouro
O novilho cria um empecilho
A hiena se aliena
A pantera espera
O tapir não quer consentir
O rouxinol sai para tomar um sol
A zebra se alista
O jegue se excede
O dromedário autoritário
O boi diz que ele não foi
O orangotango dança um tango
A morsa se esforça
A lula açula
O pica-pau cai de pau
O rinoceronte se esconde
O castor mediador
A calhandra desanda
O caracol de escol
O carapau cara-de-pau
O carneiro ordeiro
A cegonha se envergonha
O chacal imparcial
A choupa se poupa
O colibri diz: isso já vi
O canguru: déjà vu
O jaburu: o rei está nú!
A cotovia quer democracia
O cuco espera a hora
O guachinim acha o fim
O garnizé perde a fé
O escaravelho macaco-velho
O espadarte pede um aparte
O gavial liberal
A gazela acha uma mazela
O grou se acautelou
O iaque bricabraque
A iguana se ufana
A traça faz trapaça
O escólito insólito
A cicindela cria uma esparrela
O jaguar quer se resguardar
A lesma continua a mesma
O lince diz: vini, vidi, vinci!
O linguado fica indignado
A malácia acha uma falácia
O cinocéfalo fica acéfalo
O morcego pelego
O mandril perde o fio
O mangote acha um mote
O mangusto acha injusto
A marmota tudo anota
A marta se aparta
A medusa fica confusa
A arenícula fica ridícula
O mussaranho quer um ganho
A naja quer que se aja
A narceja boceja
O nilgó fica só
A nóctula rotula
O onagro fica agro
O cavalo só diz: me calo
O galo: não falo
O pato: é um desacato!
O besouro: é um desdouro!
O bem-te-vi: quem te viu, quem te vê!
A ratazana atazana
A aranha emaranha
A gralha atrapalha
A lontra é contra
O bode explode
A formiga briga
A abelha relha
A vespa encrespa
O tamanduá diz: solução não há
A maritaca ataca
O beija-flor impostor
A rã guardiã
O camaleão não se define
O burro caturro
A araponga se alonga
O sagüi sorri
O mosquito pede um plebiscito
O escorpião uma revolução
A águia quer ser a guia
A enguia quer rebeldia
O rato um trato
A sanguessuga a fuga
A codorna contorna
O dourado fica alarmado
O ouriço diz que não é bem isso
A eira fica sem eira nem beira
A abetarda tarda
O açor quer se impor
O almiscareiro chocarreiro
O arganaz falaz
A arraia se espraia
A falena fica de antena
A cigarra amarra
A garça diz que é farsa
A pomba tomba
A rola extrapola
O pelicano comete engano
A ondrata se candidata
A orca pede a forca
A órfia porfia
O orveto pede veto
A paca estaca
O paguro fica sobre o muro
O panda sarabanda
A pantera pondera
O hipocampo vai à campo
O arenque pede renque
A preguiça atiça
O protelo protela
O puma fuma
A rena acena
O girino canta um hino
O texugo quer o jugo
A toupeira diz besteira
O feneco fica sem eco
O elã cuja fala é vã
O coatá quer tudo como está
O hipopótamo acha tudo ótimo
O guriatã quer deixar para amanhã
O bicudo sisudo
O tico-tico: diga ao povo que fico!
O curió quer desatar o Górdio nó
A ave-do-paraíso é expulsa
A cacatua atua
A traíra traíra
A capivara declara
A libélula lança um libelo
A centopéia não se enleia
...Assim vai essa assenbléia...


SER

O Ser em si
O Ser
No Exterior
De si
O mundo cognoscivo
Na amplitude
Sem amplitude
Das dimensões
Possíveis
Do Universo
O Ser intui
As circunvizinhanças
Sem distâncias
Do Ser Mundo
Que se abre
Sobre o mistério
Às vezes imprescrutável
Do si Ser
Perplexo


SITUAÇÕES

Na noite
Um filósofo-poeta espiritualista-ecologista
Discorre sem descanso
Faz algumas observações sensatas
Discursos poéticos
E reminiscências...
Eu ouço
E me admiro


TRANSPORTES

Diante de mim o nada...
ABRACADABRA!
E salto lá longe
Com a rapidez do pensamento
Indo aterrizar suavemente
Num claro prado
Entre as montanhas
Em sua mansidão de gordos animais
Ressonantes e calmos
Oferecendo seu dorso manso
Coberto de relva
À frente tufos de pêlos verdes
Aquecendo a terra
Envolvendo à mim
A alegria de viver
Ouvir e ver a imensidão
Que me cerca
Ouvir o cantar isento dos pássaros
Insetos, brisa nas folhagens brilhantes
O reflexo vital da luz solar
Despejada acariciante sobre a terra
Como dedos suaves a acender
Nas folhas, na pele, um calor aconchegante
Um morno bafejo
Como um beijo de amor
Quietude, paz, verdor
Horizontes ondulados
Voejar de pássaros aos bandos
Trinidos alegres saudando o dia
Acrobacias aéreas cortando o ar...
Doce contemplação
Doce sabor de existir
Doce, doce mel
Vital.


ÁRIA SOLITÁRIA

Dias límpidos
Mornas noites
Fremir de vento
Perpassando-nos
Aluvião
Céu amplo
Luminosos dias
Rebrilhantes
Efusão de cores
Percepções
Hidra
Enigma
Vida
Consubstanciar
Nada se perde
Espiral
Dialética
Nada se cria
Matéria
Átomo
Vácuo
Espaço
Tudo se transforma
Apreensões
Flora deusa
Ondulações verdejantes
Ninfas bailam
Ovelhas pastam
Um pastor absorto
Toca uma ária
Em louvor
De sua amada
Astro sol
Amarelo
Laranja
Vermelho
Violeta
Cambiantes
Crepusculares
Nevoeiro brando
Efusão
Grânulos gotas
Orvalhais
Ovaladas
Cintilantes
Cristálicas
Fulgores
Solares
Cálidos
Bafejos tênues
Perpassam-me
Cores bailam
Fluem
Fruo
Tremeluzires
Aquosos
Raiando
Solares
Raios
Refratados
Decompostos
Frêmitos
Perpassantes
Horizonte
Dúbio
Eflúvio
Montanhas ambíguas
Fronteira divisória
Entre Dia
E Noite
Terra gira
Sol desaparece
Surge sutil
A lua
E estrelas
Longínquos sóis
O pastor
Recolhe suas ovelhas
Olhando o céu
Retoma sua lira
Tangendo uma ária
Para sua distante amada
Musa tão distante
E brilhante
Como a lua
No universo
Magnetizado
Só um frêmito
Leve brisa
Sons dos bichos
E uma ária
Solitária


SER

O Ser em si
O Ser
No Exterior
De si
O mundo cognoscivo
Na amplitude
Sem amplitude
Das dimensões
Possíveis
Do Universo
O Ser intui
As circunvizinhanças
Sem distâncias
Do Ser Mundo
Que se abre
Sobre o mistério
Às vezes imprescrutável
Do si Ser
Perplexo

TEMPO

O bate-estacas marca o tempo
O insistente ruído do relógio
Pêndulo que avança e retrocede
Ou pára
Avança e retrocede
E pára
Batem os sinos monótonos
Fatigados
Sol a pino calor
Os sinos reboam lentos
Derretendo-se
As horas fundem-se


HARPEJO

Marcadas estacas
Pelo terreno acidentado

Voar pelo cosmo
Sem objetivo

Correndo pela rua
Sobre asfalto negro


MANHÃ OUTONAL

Céu matinal de azul límpido
Onde num branco de salpicos leves
Vê-se o contorno como aspergido
No fundo leve azul a lua metade
Lua como um efeito granular
Auréola lunar
Sobre o fundo azul transparente
O sol nascente.
Manhã outonal de luz crescente


OPÚSCULO ADENDO

Verdejantes montes
Ondulantes fontes
Coruscantes

Dardejantes lumiares
Deslumbrantes luares
Inebriantes

Divagações contemplativas
Ilusões relativas
Libações

Dionisíaco recanto
Paradisíaco canto
Afrodisíaco

Extenso prado
Denso relvado
Penso

Voeja mente
Sobejamente

Água vento
Desaguamento

Noite brumando
Noitejando

Estrelas vagas
Destreladas

Noite adendo
Anoitecendo

Opúsculo ar
Crepuscular


PASSEIO

A noite está fria
O céu cinza
Mas há estrelas
Que brilham como olhos
Que brilham como seus olhos
A cidade tem a febre do movimento
Tudo passa
Por todos os lados
Por todas as direções
Nada é estático, silencioso
As pessoas andam apressadas
Os olhos encontram-se e se perdem
Luzes acendem-se e se apagam
As estrelas brincam de luzir
E eu busco a identificação
Procuro o outro em mim
O eu nos outros
Essa é uma caminhada sem fim
Sempre, todo dia


PROCURA

Perscruto: há vida.
Que pulsa ativa
pulsativa
Olho o eletrocardiograma
o eletroencefalograma

Constato: funciona.
O gráfico diz: normal
funcional
Verifico o oxigênio: perfeito
o sangue : rubro

Seus lábios vermelhos lembram-me beijo
Eles sorriem na inconsciência
Por quê?

A linha do gráfico oscilando
Interminável
Interminável?

Bip eletronicamente pausado
Como um despertador
Inútil

Olho a tela : a pulsação diminui
O espermatozóide de luz vacila

Insulina rápido

A tela nada mais acusa
Segmento de reta sem seguimento
Como um alarme bip sem pausa

Pausa

Massagem cardíaca.
Choque: último recurso
Sem resultado

A tela emudece
Tudo é silêncio na reta fatal

Mas seus lábios continuem sorrindo
Na inexistência


SONHO

Grotas inabitadas do ser
Ermos imersos na obscuridade
Infenso diabólico fenecer
Penhascos perdidos de profundidade

Ecos longínquos me assaltam
No sono da noite indormida
Figuras sem forma ressaltam
Sombras fugidias da vida

Espectros silentes manifestos
Em vagas de faltas carências
Movimentos de imóveis gestos
Presentes faltas ausências

Assaltam-me indefinidos chamados
E permanecem sem resposta
Em áridas paragens ensombraçados
Pensamento dúbio me arrosta

Divagares incessantes espelhos
De reflexos fulgentes
De fragmentos restelhos
De fulgurações pungentes

Consideradas idéias parelhas
No paradoxo fúlgida corrente
Dúvidas novas e velhas
Concernente ao não coerente

Sombra véu diáfano fugidio
De resquícios perpetrados
Imagem que esvoaça num cicio
Um sonho que nos acha despertados


SUPLÍCIO

A mim vem um laço
Pescoço retesado
Olhos vendados
Um brilho de aço
Aos poucos picado
A multidão excitada
Num burburinho
Pro cadafalso
S'encaminhar
No pelourinho
Todos no encalço
Para o suplício gozar
A corda pronta
Nó preparado
O desfecho perto
Suspense...De ponta à ponta
Mas o inesperado!
Enfim desperto
Do pesadelo...
Um alívio, decerto
De tanto zelo
Mas fique certo
Que este nó
É corriqueiro
Essas cordas
Tão só
Um cativeiro
Pra essas hordas
Mas fique certo
Que nesse nó
Nesse aperto
Que nessas cordas
Eu fico livre
Dentro de mim:
Vê se concordas.
Entre nós eu sempre estive
Assim.
Mas me liberto
Pois como é certo
O nó
È só
Incerto.


URBE

Verte uma chuva fina e rápida
Encharcando-me da cabeça aos pés
Com seu chuáchuá cadenciado
Como a marcar-me os passos
Levanta ante mim um véu difuso
Uma barreira aquosa tremente
Que faz tudo ver sem contornos
Tremendo também ao ritmo das águas
O asfalto reluz brilhando de molhado
As luzes acesas apesar de ainda dia
Embaçadas e indefinidas
Seu reflexo no chão negro
Formando manchas movediças como que vivas
Automóveis passam rápidos
Luzes acesas varando a espessura líquida
Deixando ver as lanternas vermelhas
Que se diluem até desaparecer
Então outros e outros automóveis
Em movimento infindável
As pessoas como eu andam rápido
Encolhidas em seus capotes
Ou sob guarda-chuvas melancolicamente abertos
Outros parados sob abrigos esperam ônibus
Tudo patético, melancólico
Mas há encanto em toda essa paisagem
Povoada de personagens incógnitos
Como muitos milhões de outros que por todos os lados
Ocupam os edifícios, casas, lojas, bancos
Numa atividade surda mas intensa
Impressão que todas as pessoas
Haviam interrompido suas atividades para vir às janelas
Apreciar a chuva
Chuva tão suave, acalentadora até
Que convidava à contemplação e reflexão
Comigo sorria sem saber porquê
Entrei no metrô
Cheguei à casa subi pelo elevador
Dentro fui à janela e me deixei ficar
A espreitar a chuva que continuava caindo
Num ritmo constante: lá embaixo a rua
O trânsito o movimento da hora do rush


BANHADO

Goteja cai a chuva
Ao longe no horizonte
Nuvens cobrem o céu
A chuva cai sobre os montes
Brumosos ao longe
E vem caminhando
Devagar numa tênue névoa
Vem trazendo o horizonte
Para mais próximo
Cada vez mais perto
Sussurrando cai a chuva
Banhando o ar
Terra molhada e mato molhado
Tudo molhado
Banhado
Chuva cai e a tudo banha
Ribombos esparsos de trovões
A chuva a tudo envolve


COSMO

Pelo espaço viajamos
Por entre galáxias
Gira o homem sobre a Terra
A inteligência gira torno ao homem
Manifesta-se vida
Um organismo funciona
Um defeito qualquer
Findar de uma existência
Manifestação única de ser
Uma inteligência que gira
Uma integridade motriz
Uma captação
Do geral ao particular
E vice-versa
Uma circunvolução
Solução de um problema
O inverossímel
A limitação
A constatação absoluta da vida
A transmutação da matéria
Um certo estado momentâneo individual
A abstração e o palpável
Um sentido concebível
E algo que nos foge


DEVASTAÇÃO

Caem troncos em estertores
Assassino fogo crepita
Mata cripta
Rios perambulam vadios
Rotos
Vagas marítimas titubeiam
Nuvens tristes vagueiam
Pássaros calados
Para sempre.
Pobre fauna
Pobre flora
Pobres de nós!
Perdemos a alma


ENUNCIADO

Tomar de assalto um objeto qualquer
Tomar das armas do questionamento
Travar batalhas dialéticas com a idéia
Recusar dogmas e buscar o objetivo
Analisar a realidade e dela deduzir juízos
Procurar demonstrar na prática a teoria
Tombar os fetiches por terra
Escavar a superfície para atingir o fundo
Questionar os conceitos em busca de falhas
Lançar bases sólidas no edifício do entendimento
Irrigar os terrenos áridos para poder cultivá-los


MARESIA

Olho o mar
E sua brisa
Vem me ninar


NOTURNO DIVAGAR

Corredores noturnos
Labirínticos caminhos
Aléias
Asfaltiluminadas
Renquealamedas
Brumosincertas
Noturnos caminhantes
Vagueantes
Dispersidades
Creta noturna
Cilíndricas colunas
Idéias
Minotaurosoltas
Labirínticoperdidas
Noturnodivagar
Vagos viajantes
Itinerantes
Anfractuosidades
Hidras
Esquinatentas
Hidrantes
Esfingenigmáticos
Caminhobstruindo
Noturnas quimeras
Moinhosmonstros
Luzes urbanelétricas
Vaivém
De noturnosilenteseres


O MICO DO MICRO

Desde aquele dia que te vi
Penso em ti
Que pensamento!
Não esqueci
Daquele beijo
Daquele toque
Você não responde meus e-mails
Não sei seu telefone
Fico preso ao micro
Pagando mico!


O TRABALHO QUE ENOBRECE A MAIS-VALIA

O trabalho daqueles
Que vegetam no dia-a-dia
Em busca da subsistência
O trabalho escravo das necessidades básicas
Que não as supera
E muitas vezes não as supre

Trabalho vão
Para adquirir quando muito
Parco pão

Trabalho aviltado
Trabalho malsão

Suor expropriado
Anulação

Acumulação


OBJETOS

Objeto abjeto abstrato
Abjeto?
Não.
Concreto palpável imponderável
Substrato
Do ser representado
Por si mesmo presença
Forma em conformidade
Com o universo
Incerto de um momento
Forma perene em sua
Sutil improbabilidade
Embora mesmo assim
Sendo algo que é
Algo que é,
Em si.
Reflexos de uma materialidade
Pouco provável
Mas possível.
Imagem fixável
Em sua fugacidade
Embora a idade
Dos tempos nos exija
Cautela.
Não avaliar o real
Em seu frustrante
Ocasional instante.
Ou estimulante?
Nada feérico o ver
Sentir o influxo
Do ser.
Sem parecer.
O sem-sentido
Em seu império


SENTIA

O visto e o nunca visto
O sentido e o desmentido
A afirmação por um fio
O querer crer
O ponto de tangência
A abrangência
A incongruência
O previsto jamais realizado
O desejo de falar
E o jamais falado
Por fim calado
Talvez mal interpretado
Para sempre olvidado


SORRISO FLUX I

Sempre que te vejo é um deslumbre
Você passa por mim flutuando.
Etérea imagem, acho que não é real.
Você deve ser fruto da minha imaginação.
Devo estar sonhando, penso. Logo existo?
Não sei ao certo. Não me parece verdade.
Titubeio diante de sua imagem que passa em luz
E logo se desvanece num sorriso fugaz.
E sigo incerto o meu caminho ora sem diretriz
Sua imagem persiste em mim como uma névoa
E eu, eu não sei de mais nada. Não sei nada.
Ora, reflito, ouvir estrelas...
Ainda pondero: bolas, o mundo é belo. Ou não?
E mais: seriam já horas? Enfim de quê? Para quê?
O tempo que espere, ou que passe como lhe aprouver.
Eu, por mim, nada sei. Não sei nada.
Apenas que você passou por mim etérea imagem.
E se desvaneceu como uma névoa.
E que fiquei sonhando seu sorriso lux,
Que não existo seguindo sendas sem rumo,
Que sua imagem em mim nas estrelas que procuro ouvir,
Que reflito, ora bolas, o mundo das horas. De quê? Para quê?
Que espere o tempo. Ou que passe, se lhe aprouver.
Pois nada sei sem seu sorriso, nem saberei
Se é real ou sonho sua imagem evanescente,
Se existo, existes, o sonho, o quê? Não sei.
Sei apenas que sua imagem permanece em mim
Como uma névoa.
Seu sorriso flux dança nos meus olhos


SUBJETIVIDADE

Espero-te mas não te alcanço
Ilusões seriam esses idílios.
Como saber a verdade?
Ou será que ela existe de fato?
A imaginação expande-se
Quase sem fronteiras.
Aí é que surgem os equívocos
Ou acertos?


VERDE VALE

Vale verdejante
Espreitado pelas montanhas
Mar de morros ondeantes
Rio insinuante sinuoso na paisagem
Matas galerias
Quedas d'água rochosas.
Vale do passado fausto monocultural
Do presente industrial
Do Sítio do Pica-pau.


Das borboletas
As asas
Verdes


Seu sorriso
Espero
Ver-te


Seus olhos
Amendoados
(Des) Orientam-me


FALANDO ÀS PAREDES

Paredes que me encerram
Limítrofes quatro cantos
Sem vozes em uníssono
Que me inquirem
Cem vozes entrecortadas
Ribombando nos quatro lados
Ricocheteando e confundindo-se
Em miscelânia
Ecos interferindo-se
Caos
Com o martelo dos magistrados
Ou leiloeiros
Peço silêncio
Mas não me ouvem na azáfama
Resigno-me ao silêncio
Na tentativa de entender algo
Mas é inútil esse esforço
E dizem que as paredes têm ouvidos!
Mas enfim a fadiga vence
E as cem vozes tornam-se sem voz
Então posso ouvir o silêncio
Encerrado entre quatro paredes
Emudecidas
Então falo às paredes
Que parecem ouvir a contragosto
Logo minha voz chocando-se aos obstáculos
Cinde-se em cem vozes entrecuzadas
Em turbilhão
Como réu me resigno
Encerrado por quatro paredes
Indispostas a ouvir


TECENDO CONSIDERAÇÕES

Os fatos tecem teias
Armadilhas suspensas na trajetória das idéias
Para enredar os incautos no engano;
Cada fio preso a um ponto estrutural,
Imprescindível.
A confusão de fios pode enodar
A razão emaranhada;
Presa em rocas desbojadas
Não acha o fio da meada
E pensa, diante do aracnídeo engano:
"Jamais desfarei esses nós..."
A razão-roca desbojada
Não fiando pensamentos
Anda nua
De idéias
E nada tece
Deixando-se enovelar
Por discursos enganosos
Que passam por grandes teceduras da eloqüência
Mas que não passam de tramas mal urdidas

Plantemos as sementes e colhamos as fibras
Façamos dos fios isolados das hipóteses
Teceduras do conhecimento em busca da verdade
Desfiando as urdiduras do caos

Vamo-nos vestir de sabedoria
Descobrindo a mentira de seus véus
Sair do casulo da ignorância
Trajando sedas de entendimento

Lançar fora os laços da intolerância
Retirar o manto que oculta o saber


ECO ILÓGICO

No equilíbrio ecológico
Ressoa o eco ilógico
Das derrubadas
Indiscriminadas

Eco insano
Espasmódico ecoa
Tanto dano.
Vida escoa

Mortas nascentes
Águas lúgubres
Espécimens remanescentes
Secos úberes
Tu natura.
Agora humana usura

Solo não semeado;
Amealhado

As matas,
Iníquo, matas.

Oh, belas serras!
Erosão encerras

Mar profundo
Moribundo

As sementes?
Mentes.

As mentes?
Dementes

O pássaro gorjear?
LUCRAR.